SENAI-SP pesquisa tecnologia para aumentar a eficiência do etanol em motores flex
Por: Amanda Pascoal; Fotos: Everton Amaro/Fiesp
08/10/2026
- atualizado às 14:34 em 08/10/2026

Presente em carros de alta performance, como os da Fórmula 1, a solução será adaptada ao mercado brasileiro em projeto voltado à competitividade da indústria e à mobilidade de baixo carbono
O SENAI-SP realizou, na última sexta-feira (02), no Distrito Tecnológico, em São Bernardo do Campo, o encontro que marcou o início do projeto Motor a Etanol de Alta Eficiência. A iniciativa reúne montadoras, fabricantes de componentes, empresas de engenharia e instituições de pesquisa para desenvolver, nos próximos três anos, tecnologias que aumentem a eficiência do etanol em motores flex.
A possibilidade de escolher entre o etanol e a gasolina na hora de abastecer trouxe liberdade ao motorista, mas também um desafio para o setor automotivo: fazer com que o veículo aproveite o melhor de cada combustível. Por isso, pesquisadores do SENAI-SP Distrito Tecnológico e Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) começam a desenvolver no Brasil uma tecnologia que busca aumentar a eficiência desses motores e, na prática, fazer o carro rodar mais quilômetros com a mesma quantidade de etanol.

A tecnologia já tem aplicação semelhante no exterior, e é conhecida pelo uso em motores de alta performance, como os da Fórmula 1. O desafio agora é adaptá-la aos motores compactos encontrados em carros brasileiros.
Para Fabrício Lopes, gerente do Distrito Tecnológico, a iniciativa aproxima uma tecnologia de alto desempenho à realidade do mercado no País. “Esse será um motor flex pensado primeiro para o etanol e adaptado à gasolina, com uma tecnologia que hoje é encontrada apenas em veículos de alta performance. Queremos trazer essa solução para os carros populares e contribuir para a transição da indústria automotiva e uma economia de baixo carbono”, afirma.

Tecnologia de alta performance para o motor flex
Antes do carro entrar em movimento, a gasolina ou o etanol são misturados ao ar e comprimidos dentro do cilindro. Em termos simples, quanto mais essa mistura pode ser comprimida de maneira controlada, maior tende a ser o aproveitamento da energia do combustível.
O etanol suporta condições que permitem buscar taxas de compressão mais altas. O problema aparece quando o mesmo motor também precisa funcionar com gasolina. Aumentar demais a compressão pode provocar uma combustão fora do momento adequado - fenômeno que, em situações extremas, pode até danificar o motor. Por isso, os motores flex trabalham dentro de limites que garantam seu funcionamento com os dois combustíveis.
A inovação tecnológica acontece dentro do motor, em uma pequena estrutura chamada de pré-câmara passiva. Em um motor convencional, a combustão começa em um único ponto e a chama se espalha pelo cilindro. Com a nova tecnologia, a mistura de ar e combustível começa a queimar primeiro dentro dessa pequena câmara e, depois, é lançada por pequenos orifícios para diferentes pontos do cilindro.
A ideia é tornar a queima mais rápida e homogênea. Com isso, os pesquisadores esperam aumentar a compressão do motor e aproveitar melhor a energia do etanol, mantendo o bom desempenho da gasolina.

Do laboratório para a indústria
Os testes serão realizados no laboratório de Sistemas de Propulsão que está sendo implantado no SENAI-SP Distrito Tecnológico, no ABC Paulista. Ecossistema de inovação e tecnologia do SENAI-SP e da Fiesp, a unidade tem mais de 52 mil m² dedicados à pesquisa aplicada em áreas como Manufatura Avançada, Materiais Avançados, Biotecnologia e Alimentos, Tecnologias Digitais Avançadas, Energia e Meio Ambiente.
No laboratório, os motores irão funcionar sob condições controladas enquanto equipamentos medem parâmetros como desempenho, consumo e emissões. A previsão é que a nova estrutura esteja plenamente operacional até o segundo semestre de 2027.
O projeto também conta com a participação de algumas das principais montadoras do país, como Volkswagen, Stellantis, General Motors, Hyundai e CNH Industrial, além das fabricantes de componentes Horse, Tupy, MW, Mahle e Schaeffler, as empresas de engenharia AVL, Dirac, Liconic e os Institutos SENAI de Inovação em Engenharia de Estruturas, em Maringá, no Paraná e Sistemas de Manufatura a Laser, em Joinville, Santa Catarina.
Lopes também defende que reunir diferentes atores é essencial para que o desenvolvimento avance além da etapa de pesquisa. “Não basta ter um bom projeto de pesquisa e desenvolvimento. É preciso reunir os diferentes atores para que essa tecnologia chegue ao mercado, gere valor para a sociedade e aumente a competitividade das empresas”.
Etanol na rota da descarbonização
A pesquisa ocorre enquanto a indústria automotiva busca alternativas para reduzir as emissões do setor. O desenvolvimento também acompanha a agenda brasileira de mobilidade de baixo carbono prevista na Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), que estabelece medidas para ampliar o uso de combustíveis de menor emissão de carbono no país.
No Distrito Tecnológico, o SENAI-SP também está trabalhando na pesquisa aplicada para melhorar o etanol de segunda geração (E2G), produzido a partir do bagaço da cana-de-açúcar e seus resíduos.
Para o SENAI-SP e a Fiesp, aproveitar a vantagem que o Brasil já tem no etanol para desenvolver um motor de alta eficiência no próprio país é um caminho para tornar a indústria automotiva mais competitiva e ampliar o espaço brasileiro na transição para uma mobilidade de baixo carbono.